quarta-feira, 3 de março de 2010

Uma guerreira chamada Treut.




O CCBB apresenta, com o apoio do Instituto Goethe, a retrospectiva “Guerreira das Imagens: Monika Treut”. Com a presença da cineasta em debates e sessões, a mostra exibirá todos os seus catorze filmes – a maioria inédita no Brasil e os demais só vistos no circuido dos festivais –, além da videoinstalação “Aotearoa”, sobre a cultura neozelandesa. Monika é uma cineasta que inovou a linguagem do cinema independente e seus filmes retratam pessoas que superam os papéis que as respectivas sociedades lhes atribuem: são lutas feministas, lutas sociais, lutas por identidade sexual, lutas políticas. Uma grande oportunidade para o espectador brasileiro ver Guerreira da luz, documentário de 2001 sobre Yvonne Bezerra de Mello e seu trabalho com meninos de rua do Rio de Janeiro; seu premiado Generonautas (Gendernauts); e de conferir seu último filme Fantasma (Ghosted).

Em seguida, a entrevista publicada no JB ONLINE:

A alemã Monika Treut promove mostra de seus filmes no CCBB

Carlos Helí de Almeida, Jornal do Brasil


RIO DE JANEIRO - Relegadas ao segundo plano pelo cinema comercial, as personagens femininas e suas lutas – políticas ou sexuais – têm uma defensora de respeito na cineasta alemã Monika Treut, que está no Brasil para a abertura da retrospectiva de sua obra, em cartaz a partir desta terça-feira no Centro Cultural Banco do Brasil. São 10 longas-metragens e quatro curtas que trabalham o universo feminino (ou feminista) no contexto de suas lutas do dia a dia, – representado pelo trabalho social da artista plástica carioca Yvonne Bezerra de Mello, protagonista do documentário Guerreira da luz (2001), ou na tragédia envolvendo uma videoartista alemã e sua amante taiwanesa de Fantasmas (2009). Lésbica assumida, Monika viaja pelo mundo fazendo filmes que devolvem à mulher seu real lugar no cinema independente.

– Eu me identifico com a comunidade do cinema independente queer (homossexual). Nós, de certa forma, estamos construindo uma globalizada de baixo para cima, onde pessoas reais e artistas de diferentes culturas se encontram e trabalhar juntos para entender nossas diferenças e semelhanças – explica a diretora de 55 anos em entrevista ao Jornal do Brasil.

Qual o significado para a senhora dessa retrospectiva no Brasil?

É uma felicidade para mim, uma grande honra ter meus filmes exibidos no Centro Cultural Banco do Brasil do Rio de de São Paulo. Como trabalhei no Brasil mais de uma década atrás, fiz muitos bons amigos no país, é como se fosse uma minha segunda casa. Tenho grande respeito por meus colegas brasileiros e sempre que posso os acompanho no circuito de festivais internacionais.

Em que circunstâncias conheceu o trabalho de Yvonne Bezerra de Mello?

Conheci Yvonne por intermédio de uma amiga comum, uma jornalista, quando morei em Nova York. Essa amiga insistia para que eu conhecesse a Yvonne e arranjou um modo de nos encontrarmos. Quando isso finalmente aconteceu, passamos um dia inteiro conversando. Para minha sorte, logo depois fui convidada para participar do Festival Mix Brasil e então pude conhecer o trabalho de Yvonne na favela da Maré, as crianças atendidas pelo projeto, as pessoas que a ajudavam, seus amigos e familiares. O projeto Uerê, que ela dirige, me tocou profundamente, o que só aumentou o meu respeito por sua coragem e sua força e pelo método que ela desenvolveu para trabalhar com crianças carentes. Então escrevi o roteiro para o documentário e consegui recursos para o projeto com a ajuda de um fundo para cinema e uma TV alemães.

A senhora já sofreu preconceito por ser abertamente uma cineasta lésbica?

Ah, sim, já fui várias vezes vítima de rejeição e reações desagradáveis por causa disso. Certa vez, quando eu dava aula de cinema em um colégio só de meninas em um estado do Sul dos EUA, um grupo de cristãos fundamentalistas montou um protesto contra mim na porta da instituição. Eles seguraram cartazes que diziam coisas do tipo: “Projetam nossa comunidade!”, ou “Lesbianismo não é normal!”. Também ligaram para o colégio e exigiram que eu fosse mandada de volta para a Alemanha, porque temiam que eu fosse uma má influência para as estudantes.

O que a fez se especializar em filmes sobre a sexualidade feminina e mulheres marginalizadas?

Quando comecei a fazer filmes, no início dos anos 80, não havia muitas histórias sobre mulheres fortes. A maioria dos personagens femininos dos filmes produzidos na época eram mostradas como criaturas sofredoras. Frequentemente, elas eram mostradas como vítimas ou coadjuvantes em filmes de ação masculinos. Sentia falta de mulheres fortes no cinema. Fiquei feliz pela oportunidade que tive de poder fazer filmes sobre mulheres fortes, interessantes e incomuns.

A retrospectiva inclui seu filme mais recente, Ghosted. O que a senhora pode dizer sobre esse filme, rodado na Alemanha e em Taiwan?

É uma tentativa de construir uma ponte entre a Europa e a Ásia, usando a morte como tema. Na Alemanha, assim como na Inglaterra, desenvolvemos a tradição de contar histórias góticas sobre pessoas amadas que morreram. Basta lembrar de Edgar Allen Poe ou os romancistas alemães E.T. A Hoffman e Tieck, entre outros. A figura da pessoa amada que voltava dos mortes para assombrar os vivos era uma obsessão para eles. Histórias de fantasmas também são uma tradição na Ásia, particularmente em Taiwan. É uma forma de lidar com a perda da pessoa amada. Também perdi um amigo próximo recentemente e escrevi esse roteiro como uma tentativa de trabalhar com esses sentimentos tristes. Já tinha feito dois filmes em Taiwan antes e fiz grandes amigos por lá. Então, dessa vez foi possível fazer a primeira coprodução oficial entre os dois países, com atores e equipe técnica dos dois continentes.

Ainda se identifica com a cena independente alemã?

Cresci à sobra do chamado Novo Cinema Alemão dos anos 70, assistindo a filmes de Fassbinder, Herzog, Wenders e Schroeder. Tiveram grande impacto em minha formação. Quando passei a fazer filmes, nos anos 80, eu me tornei meio nômade, filmando nos Estados Unidos, México, Brasil e, às vezes, na Ásia. Então, não me considero muito próximo da minha própria cultura (cinematográfica), me identifico mais com a comunidade do cinema internacional do independente queer. Nós, de certa forma, estamos construindo uma globalizada de baixo para cima, na qual pessoas reais e artistas de diferentes culturas se encontram e trabalhar juntos para entender nossas diferenças e semelhanças.


.19:19 - 01/03/2010

Me pergunto: até que ponto a fragilidade não é uma força? Outro dia, um amigo me fez essa colocação: "Hoje todos tem medo de se mostrar frágil. Qual o problema de você se assumir dependente do outro?". Achei uma boa problematização...As mulheres lutando por "força" me parece estarem na mesma lógica masculina dominante, não? De qq jeito, não pretendo perder a mostra!

SERVIÇO

Data: De 02 a 14 de março
Local: Cinema 1 Rua Primeiro de Março, 66 - Centro
Bilheteria/Informações: Terça a domingo, das 10h às 21h Telefone: (21) 3808-2007
Classificação: Livre

CCBB São Paulo: 10 a 21 de março
Debate dia 13 de março, sábado, com Monika Treut, Suzy Capó (diretora do Mix Brasil) e Roberto Moreira (cineasta)

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Escola Jovem LGBT?!

"Cultura LGBT é a cultura que enfrenta não a cultura heterossexual, mas a cultura heteronormativa, isto é, a cultura que esmaga toda manifestação de diversidade sexual na sociedade", diz Deco Ribeiro, ativista escolhido como diretor da Escola Jovem LGBT, um projeto do Estado de São Paulo e do Ministério da Cultura que terá início em março deste ano.

Uma "escola gay"? Não estaríamos fragmentando o que na verdade deveria ser socializado? Por que não incluir o tema no currículo de todas as escolas?

leia a reportagem completa em:
http://acapa.virgula.uol.com.br/site/noticia.asp?codigo=10048&target=_self&titulo=%2522A+educa%25E7%25E3o+%25E9+essencial+na+luta+contra+homofobia%2522%252C+diz+diretor+da+Escola+Jovem+LGBT

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Elas não são gays?!




A reportagem a seguir, enviada por um amigo de sampa, JP, chamou minha atenção. Trata-se de um casal de mulheres de Blumenau, psicanalistas e professoras universitárias, que conseguiram o registro dos gêmeos, filhos biológicos de uma delas, no nome de ambas. As professoras são casadas e não se consideram homossexuais, pois ambas assumem diferentes "posições" no relacionamento, uma é masculina e a outra, feminina. Vale a pena ler...


Michele e Carla são casadas, têm filhos, mas afirmam não ser homossexuais.

Quando conhecem alguém, Michele Kamers e Carla Cumiotto fazem questão de se apresentar sem deixar nada por dizer: “Somos casadas, fizemos inseminação artificial em São Paulo e temos dois filhos”. Elas preocupam-se em deixar tudo claro por acreditar que são as dúvidas e sombras que alimentam maledicências e preconceitos. E, como formaram uma família diferente do padrão convencional, querem que seu casal de filhos cresça numa sociedade preparada para recebê-los. Conheci essas mulheres extraordinárias dias atrás, quando as procurei com a proposta de contar sua história. O resultado desse encontro é a reportagem "A primeira nova família brasileira", publicada na atual edição de ÉPOCA.

Michele e Carla conquistaram na Justiça o direito de registrar seus gêmeos, de 2 anos, no nome de ambas. Até agora só tinham o sobrenome de Carla, a mãe biológica. Michele não aceitava a ideia de ter de entrar com um pedido de adoção. Ela desejou esses filhos, acompanhou o processo de inseminação, via banco de esperma, esteve ao lado de Carla durante toda a gestação e no parto por cesariana, e cria junto com Carla os dois filhos na casa que ambas compraram. “Eu não poderia adotar meus próprios filhos”, diz. “Eles nasceram do meu desejo, tanto quanto do de Carla.”

É a primeira vez que a Justiça brasileira reconhece um vínculo exclusivamente afetivo, simbólico, como parental. Não há nenhum traço biológico ligando os gêmeos a Michele. Mas ninguém que conhece a família, assim como o juiz Cairo Roberto Rodrigues Madruga, da 8ª Vara de Família de Porto Alegre, tem qualquer dúvida sobre o fato de eles serem tão filhos de Michele quanto são de Carla. A surpresa é que uma das maiores vitórias na área dos direitos dos LGBTTTS é de um casal de mulheres que afirma não ser homossexual – não por preconceito, mas porque acreditam que a questão é mais complexa do que parece. A sigla, cada vez maior porque há sempre uma nova diferenciação a incluir, significa Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais, Trangêneros e Simpatizantes.
Quando Carla e Michele disseram-me que não se identificavam como homossexuais, meu primeiro sentimento foi de estranhamento. Até então eu me considerava heterossexual – uma definição que identifica pessoas que costumam viver suas histórias de amor com o sexo oposto, mas que raramente é usada porque ninguém precisa ficar afirmando algo que é o convencional – e, principalmente, que é aceito. E homossexual era todo aquele que vivia relações afetivas e sexuais com o mesmo sexo. Simples assim.

Pelos amigos gays e por algumas reportagens que gostaria de ter feito, sempre soube que os arranjos eram muito mais complexos e interessantes do que isso. E que, ao reduzir a diferença a uma palavra ou mais palavras fechadas em seu significado, perde-se de vista um universo pleno de nuances. E nós, ditos heterossexuais, também somos reduzidos a algo que parece muito óbvio – e que de fato não é, ou pelo menos espera-se que não seja. Mas nunca fui provocada a pensar tanto assim no assunto.

Ao entrevistar o casal em sua casa, em Blumenau (SC), seus argumentos me levaram a uma série de novas questões. Ao final do primeiro dia, eu e o fotógrafo Marcelo Min pedimos uma garrafa de vinho, no hotel, e ficamos conversando sobre as tantas perguntas inusitadas que a reportagem nos provocava. Esse é sempre o melhor cenário para um repórter e para um fotógrafo que amam o que fazem: quando a pauta se mostra muito mais complexa do que parecia e nos desafia, também do ponto de vista pessoal, a indagações inéditas. Acredito que uma reportagem só acontece quando repórteres e personagens se transformam nesse encontro. E espero ter colocado nelas quase tantas pulgas quanto elas me colocaram.

Carla e Michele são psicanalistas, professoras universitárias, que pensam bem e têm um ótimo senso de humor. Formam um casal mais tradicional do que a maioria dos casais convencionais que eu conheço. Cada uma delas tem uma papel bem definido na relação: Michele ocupa a posição masculina e Carla a feminina – entendendo tanto o feminino quanto o masculino nas definições tradicionais inscritas na cultura. Carla sempre namorou homens – masculinos – e Michele é a primeira mulher de sua vida. “Não posso me identificar como homossexual porque sou atraída pela posição oposta”, diz Carla. “Gosto de homens e mulheres masculinos. Jamais beijaria uma mulher ou um homem feminino.” Na rua, Carla segue olhando para homens e, em geral, observa uma mulher quando se interessa por seus sapatos, bolsas ou roupas.

Michele namorou gente de ambos os sexos durante a adolescência, mas acabou fixando-se em mulheres femininas na vida adulta. Quando viu Carla, sua professora no curso de Psicologia, encantou-se pelo vestido justo, de um ombro só, e pelas unhas vermelhas. Ela mesma está bem longe do que seria o esterótipo de uma mulher masculina. Michele é bonita, veste-se com estilo, inclusive usando vestidos justos nas festas, usa brincos, colares e maquiagem, tem luzes no cabelo pelos ombros. Mas, por um sentimento intangível, qualquer um que se aproxima dela sabe que ela é masculina, mas não no sentido de se parecer a um homem, mas masculina como só uma mulher pode ser.

E, para ciúmes de Carla, que descobriu-se com a novidade de um marido circulando predominantemente entre mulheres, Michele mesmo sem querer desperta paixonites entre garotas homo ou heterossexuais. Mas também não consegue ver-se como homossexual. “Hoje existem diversos modos de ser mulher, inclusive ser mulher e ter uma posição masculina. Do mesmo modo que é possível ser um homem na posição feminina. Não é preciso cortar o pênis para ter um lugar social. Muita gente, ao mudar de sexo, está resolvendo na anatomia uma questão psíquica, uma questão de reconhecer-se no corpo que se tem”, diz. “Acho que uma mulher precisa ser muito mulher no sentido de não ter medo de ser confundida com um homem. Me vejo como uma mulher masculina que gosta de mulheres femininas.”

Carla e Michele não frequentam guetos gays, como bares, restaurantes e danceterias. A maioria de seus amigos poderia ser identificada como heterossexual. “Todo o gueto – e não apenas o homossexual – visa excluir a diferença. Seja ele ideológico, religioso, racial ou sexual”, diz Michele. “E nós acreditamos que é o confronto com as diferenças que nos faz avançar, que nos apresenta novas possibilidades de existir, que nos permite a invenção de uma vida melhor. Nas ocasiões em que tentaram eliminar as diferenças, determinar que só existia uma forma de viver, foi muito triste, como no nazismo e no fascismo.”

Como a questão de ser ou não homossexual tangenciou as cinco horas de entrevista, Carla e Michele ainda me enviaram um email, com o objetivo de clarear sua posição. É Carla que escreve primeiro: “Não nos reconhecemos como homossexual justamente por que, ao se apresentar como ‘homossexual’ nos parece que o sujeito reduz e condensa o conjunto de traços identificatórios que o define a apenas um: ‘o homossexual’. Ou seja, como se a partir desse momento deixasse de ter nome próprio, de ser filho, de ter uma profissão, de ter uma identidade de homem ou mulher. Somos mulheres e entendemos que, na vida, se é homem ou mulher. Para depois, a partir das determinações discursivas da época em que se vive, assim como a partir das marcas infantis, e assim como dos ‘bons encontros’ na vida, cada um vai se referenciando a partir do masculino ou do feminino enquanto posição psíquica. E isso vai determinar seu jeito de amar, de namorar, de fazer laço, etc. Por exemplo: No primeiro dia em que ficamos, quando fui tocar o corpo da Michele, me surpreendi que não tinha um pênis. Isso é só para te inspirar e te dar um exemplo de que o quanto o conhecimento da anatomia e da realidade é menos determinante que a dimensão do simbólico enquanto representação. Isso é para brincar um pouco do quanto existem mil e um ordenadores e arranjos possíveis no campo da sexualidade e, principalmente, uma infinidade de arranjos possíveis para um casal”.

O texto continua, desta vez escrito por Michele. “Gostaríamos de deixar uma interrogação: o que é apresentar alguém como homossexual, na medida em que nunca vimos alguém se apresentar como heterossexual? Ou ainda, como poderíamos aceitar essa representação se a idéia do homossexual faz alusão à atração pelo mesmo sexo, se o encontro entre mim e Carla diz justamente da atração pela diferença de posição? Ou seria o estereótipo ‘homossexual’ uma forma de anular a reflexão e de manter a ilusão de que não temos ‘nada’ comum para fazer laço?”.

Considerei as questões colocadas por elas tão interessantes que quis trazê-las para essa coluna. Tudo o que nos provoca a pensar sempre nos faz avançar. Concordar ou discordar não é o mais importante. Acho que as pessoas dão valor demais ao “concordo” ou “discordo” – e assim perdem ótimas oportunidades de aprimorar sua reflexão porque sentem-se ameaçadas quando algo abala suas convicções. Provocações intelectuais valem a pena porque nos fazem refletir para além do que pensávamos antes – e tornam possível chegar a questões que também superam as iniciais. Valem a pena porque nos fazem duvidar de nossas certezas. E esse é um excelente exercício para nos tornarmos pessoas melhores, que pensam mais e melhor e conjugam a tolerância. Se o método servir para alguém, sempre que algo me parece muito novo ou mesmo absurdo, eu faço um exercício que começa por um silencioso, mas nem por isso menos sonoro: “Será?”.

É necessário ressaltar que a denominação homossexual e seus derivativos foram usadas por muito tempo para discriminar. Até pouco tempo o “homossexualismo” era considerado uma patologia, um desvio. E há quem ainda defenda essa teoria. Por outro lado, com imensa coragem e obstinação, o movimento gay conseguiu transformar uma definição que era pejorativa em ação afirmativa, fundamental para a conquista de direitos. Foi preciso afirmar a diferença para conquistar o direito de existir. Fechar-se em guetos se impôs como um espaço de proteção diante de uma sociedade preconceituosa – e uma estratégia para encaminhar as questões legais com maior poder de pressão. Hoje, o próprio desdobramento da sigla LGBTTTS, que não para de aumentar em função de novas definições, mostra um caminho de abertura. O trinômio GLS (gay, lésbicas e simpatizantes) não abarca mais todas as diferenças. E possivelmente teremos uma sociedade melhor quando as diferenças não precisarem mais ser explicitadas numa sigla.

É por esse caminho que me parecem ir Carla e Michele. Elas não ocultam nenhum elemento de sua condição. Pelo contrário, apresentam-se com uma transparência pouco vista, mesmo em militantes da causa. É preciso observar ainda que elas não circulam por guetos, mas na universidade, na escola dos filhos, nos restaurantes da cidade, no clube, nos próprios consultórios. E não em São Paulo, uma cidade que pelo tamanho permite a vivência de todos os arranjos – mas em Blumenau, uma cidade de porte médio, conservadora, com população predominantemente de origem alemã.

Ao escutar a argumentação de Carla e Michele, fiz várias indagações sobre minha vida e analisei meus arranjos amorosos em retrospectiva. Provavelmente eu nunca lidaria bem com um parceiro com uma posição masculina tão determinada. Percebo que tenho muito forte em mim as duas posições – e as alterno nos jogos amorosos e sexuais. Homens muito masculinos ou femininos demais acabam por me desinteressar. Sou atraída por gente que mistura, me fascino pelas nuances. E provavelmente por isso meu casamento tenha sobrevivido não às pequenas, mas a pelo menos uma grande crise.

Gosto, numa história de amor, da liberdade de ser uma coisa e outra. E, embora já tenha me sentido atraída por mulheres – femininas e masculinas –, nunca aconteceu. O que não significa que não acontecerá. E me exponho aqui em reciprocidade à exposição dessas duas mulheres, que entenderam que tinham a responsabilidade ética de se mostrar, para que outros brasileiros pudessem refletir sobre uma questão tão importante. Não acho que meu jeito é melhor que o de ninguém – nem que o de Michele e Carla sejam melhores ou piores que todos os outros possíveis. Acredito apenas, por tudo que vi, ouvi e senti, que elas formam um casal interessante e criaram uma família bonita.

Saí dessa experiência de reportagem com apenas uma convicção pessoal. Não sou heterossexual. Não porque pretenda começar a namorar mulheres, mas porque cheguei a conclusão de que essa definição diz muito pouco sobre a complexidade do que somos. Está na hora de criar nomes mais fluidos, acho eu. Se alguém me perguntar se sou homo ou hetero, vou dizer: “Sou uma mulher às vezes masculina, às vezes feminina, que gosta de homens às vezes femininos, às vezes masculinos”. É mais complicado, sem dúvida. Mas é bem mais estimulante. E libertador.

Eliane Brum - Revista EPOCA

domingo, 29 de novembro de 2009

Woman in Art

"La vidéo "Women in Art", réalisée par Philip Scott Johnson, est une hymne impressionnante consacrée à l'histoire de l'art à travers l'image de la femme."

fonte: http://www.artgallery.lu/digitalart/women_in_art.html

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

"Mudança de sexo: Cirurgia em debate na web"

"A Sala de Convidados, do Canal Saúde / Fiocruz, amplia o debate sobre a cirurgia de transgenitalização pelo Sistema Único de Saúde (SUS), sexta-feira (23), às 13h. Muito mais que mudança de sexo, o procedimento envolve quebras de paradigmas para o paciente e para a sociedade. Um exemplo é o direito de alterar a certidão de nascimento.

A equipe de reportagem do Canal Saúde foi ao Hospital Universitário Pedro Ernesto, no Rio de Janeiro, para acompanhar como está o atendimento. Lá, são realizadas duas cirurgias por mês.

Interativo – No programa Sala de Convidados, o público participa ao vivo pela WEB www.canalsaude.fiocruz.br, no chat, ou assistindo pela NBR e ligando 0800 701 8122. Se preferir, antecipe a participação pelo canal@fiocruz.br

Convidados – para discutir o tema com telespectadores e internautas estarão no estúdio a coordenadora da área de Saúde da Mulher, do Ministério da Saúde, Lena Peres; a pesquisadora do Instituto de Medicina Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Márcia Arán; e a consultora em Direitos Humanos da Aracê – Mobilização Social em Direitos Humanos, Feminismos e Transexualidade. O programa vai contar com a presença de um cirurgião para esclarecer dúvidas a respeito dos procedimentos médicos. A cirurgia de transgenitalização é de alta complexidade, chegando a durar até sete horas.

Identidade – Na semana passada (15/10), a Terceira Turma do Superior Tribunal de Justiça (STJ) decidiu por unanimidade que o transexual tem o direito, se assim pretender, de alterar sua certidão de nascimento, com relação a nome e gênero, após ter realizado, no Brasil, a cirurgia de transgenitalização.
O STJ acatou o recurso de um transexual chamado Clauderson – que pretendia adotar o nome de Patrícia – contra decisão do Tribunal de Justiça de São Paulo pela qual no registro civil “prevaleceria a regra geral da imutabilidade dos dados, nome, prenome, sexo, filiação etc”. O TJ-SP sustentava que a afirmação dos sexos (feminino ou masculino) não obedece a aparência, mas a realidade espelhada no nascimento, que não poderia ser alterada artificialmente. A defesa do transexual, por sua vez, alegava que a aparência de mulher, por contrastar com o nome e o registro de homem, causava-lhe diversos constrangimentos sociais, além de abalos emocionais e existenciais.
No julgamento, prevaleceu o voto da relatora do recurso, ministra Nancy Andrighi, para quem não faz sentido o Brasil permitir cirurgia no Sistema Único de Saúde (SUS) e não liberar a modificação no registro civil. Para a ministra, “há um conjunto de fatores sociais e psicológicos que devem ser considerados” para que o indivíduo que passou pela cirurgia tenha uma vida digna. A ministra lembrou ainda que a troca do registro já é prática permitida em diversos países (Agência Brasil).

Onde ver – Para saber como assistir a NBR na sua cidade ou obter mais informações sobre a NBR, acesse http://www.ebcservicos.ebc.com.br/veiculos/nbr Para assistir no site do Canal Saúde, acesse, clique na TV com a inscrição “ao vivo” e participe a partir do chat associado à transmissão. Se preferir, antecipe suas perguntas: canal@fiocruz.br. A Sala de Convidados é apresentado por Renato Farias."


Publicado em: 21 outubro, 2009 por Reportagem


fonte: http://www.redenoticia.com.br/noticia/?p=14747

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

"Cadê nosso Stonewall?" por João Silvério Trevisan

"Em 1973, deixei o Brasil e fui morar nos Estados Unidos, mais precisamente em Berkeley, cidade ao lado de San Francisco, na California. Aí vivi metade dos 3 anos que passei em exílio provocado pela ditadura militar. Berkeley era então um verdadeiro caldeirão de experiências da contra-cultura, com um intenso debate político sobre direitos civis, inclusive femininos e homossexuais. Eu, ex-seminarista com veleidades anarquistas, curtidor de rock´n roll e homossexual recém-saído do armário, viajei para lá desejoso de viver o meu tempo e conhecer novas alternativas. Enquanto trabalhava em restaurante para sobreviver, eu me descobri fazendo parte de uma luta e de uma comunidade. Enturmei-me com jovens homossexuais, integrei-me em grupos gueis de conscientização (alguns reunidos em salões de igreja), trabalhei em programas de rádio para a comunidade guei, freqüentei grupos de anti-psiquiatria, fiz pique-nique no dia do Orgulho Gay, participei da Gay Parade de San Francisco e mergulhei na intensa vida sexual que se descortinava por toda parte. O mais engraçado era que ninguém se preocupava em integrar-se necessariamente a nenhum grupo ativista. A comunidade discutia política homossexual como se a respirasse no ar. E todos participávamos da luta liberacionista pelo simples fato de sermos homossexuais.

Nada disso caiu do céu. Em 1969, um episódio violento deflagrou o moderno movimento homossexual. Ocorreu nas ruas, protagonizado por homossexuais anônimos, legítimos representantes da comunidade guei. Em Nova York, na madrugada de 28 de junho desse ano, uma sexta feira, ocorria uma batida policial rotineira num bar dançante, o Stonewall Inn, em Grenwich Village. O local, freqüentado sobretudo por homossexuais jovens, não brancos e travestis, tinha fama de ligação com a máfia, funcionava sem alvará para bebidas alcoólicas e apresentava shows de go-go boys semi nus. Era, portanto, um prato cheio para o novo delegado que acabara de tomar posse no Distrito Policial do bairro e precisava mostrar serviço. Conforme relato do jornal Village Voice de 3 de julho de 1969, a pequena multidão de clientes retirados à força do bar começou a gritar e vaiar, diante da prisão de algumas pessoas. A chispa incendiária ocorreu quando, ao ser levada por um policial, uma lésbica reagiu e começou a incitar à briga. A resposta foi imediata. Da multidão, mas também das janelas vizinhas, começaram a chover moedas, latas de cerveja e garrafas sobre os policiais. Mais homossexuais foram aparecendo e passaram a atirar-lhes pedras do calçamento. Um grupo trouxe um parquímetro retirado da calçada, com o qual golpeou as portas trancadas do bar, como um ariete. Alguém gritou pedindo gasolina e, de repente, o bar estava em chamas. Mais policiais chegaram, para resgatar seus colegas acuados pela multidão. À frente do ataque aos policiais, não estavam representantes da classe média local, mas travestis porto-riquenhos e jovens bichas desmunhecadas - gente que não tinha nada a perder. A revolta se espalhou pela vizinhança, por toda a madrugada e a noite seguinte, com homossexuais enfurecidos jogando latas de lixo contra carros da polícia e enfrentando um esquadrão da polícia anti-motim, aos gritos de "Gay Power". No sábado, os muros da região estavam cheios de pichações conclamando ao gay power. No domingo, o poeta Allen Ginsberg apareceu no local para dar seu apoio e comentou com a reportagem: "Os gueis perderam aquele olhar ferido que tinham dez anos atrás." Logo depois, nascia em Nova York o Gay Liberation Front, um grupo de homossexuais militantes que pregava a revolução guei. Ramificações dessa organização espalharam por todo o país a luta pelos direitos homossexuais, inclusive em estados mais conservadores e cidades menores. Saídas do meio da comunidade e não de partidos políticos, as novas lideranças homossexuais foram elaborando um programa político novo e passaram a usar um discurso próprio, a partir dos direitos homossexuais. Inaugurava-se aquilo que passou a se chamar gay mouvement.

Bem diverso foi o processo no Brasil. Aqui, o movimento homossexual nasceu e continuou sendo, com raras exceções, uma atividade de classe média. Além de não termos leis expressamente contrárias à prática homossexual, o ativismo guei sofreu grande atraso por causa do "jeitinho" brasileiro: ao invés de enfrentar a situação, aqui é mais fácil manter uma vida homossexual disfarçada detrás de um casamento hétero. Nos Estados Unidos, a barra sempre foi muito mais pesada para homossexuais: ainda existem vários estados onde a sodomia é ilegal, mesmo que praticada em privado. Portanto, lá a luta contra a discriminação tornou-se muito mais radical e mobilizadora, independentemente das classes. Outro fator é o diferente tipo de esquerda que havia no Brasil e nos Estados Unidos, no seio das quais nasceu o movimento guei. Na época da batalha de Stonewall, boa parte das nascentes lideranças homossexuais americanas compartilhava da contra-cultura, com vivência nas lutas pelos direitos civis, que não se restringia às classes médias. Considere-se também que, no caso americano, não se tratava de uma esquerda hegemônica, organizada em torno de um projeto partidário centralizador. Os partidos socialistas americanos nunca foram tão fortes quanto na América Latina. Lá o espectro ideológico da nova esquerda (new left) integrava-se ao espírito da chamada contra-cultura, na qual vicejavam diferentes tipos de socialistas e marxistas, hippies, anarquistas, pacifistas, ativistas negros, militantes feministas e ambientalistas. Estruturada em torno dos direitos civis e da luta contra a guerra no Vietnã, a nova esquerda americana deixou que as lideranças homossexuais bebessem em sua fonte, mas também teve flexibilidade para lhes permitir uma identidade própria. Assim, quando o moderno movimento homossexual começou nos Estados Unidos, já estava em curso uma severa crítica das feministas à esquerda machista. Foi delas que o ativismo homossexual americano emprestou vários conceitos ligados a questões de gênero e não apenas de classes. Portanto, pode-se dizer que o movimento de liberação homossexual americano é filho da contra-cultura e logo passou a dialogar com ela. No Brasil, ao contrário, era mais difícil o convívio com as divergências, nas alas progressistas. Ainda que contrárias ideologicamente aos partidos da elite burguesa, nossa esquerda manteve sempre a mesma postura autoritária da política tradicional do país. Organizou-se em partidos centralizadores e teve dificuldade para se antenar com temas mais modernos. Como sempre visou posições hegemônicas, opôs-se ferrenhamente à autonomia do movimento negro, de mulheres e de homossexuais. Lembro do meu assombro no II Congresso da Mulher Paulista, em 1980, quando militantes do MR-8, grupo dissidente do partido comunista, invadiram o TUCA-SP, onde se realizava o encontro, e deram porradas nas feministas, sob pretexto de que elas estavam provocando a fragmentação da luta proletária. No mais das vezes, tratava-se de partidos homofóbicos. Quando nós do grupo SOMOS-SP nos organizamos como primeiro grupo de liberação homossexual do Brasil, em 1978, ficamos diante de um paradoxo: aprender quase tudo com as esquerdas que nos rechaçavam e buscar um discurso próprio, que propiciasse inclusive críticas ao machismo esquerdista.

A organização centralizadora da esquerda passou para os grupos de liberação homossexual, que sempre se engalfinharam em disputas pelo poder. Assim ocorreu com o grupo SOMOS-SP, tomado pela Convergência Socialista, através de um golpe em 1981. Isso jogou no lixo o esforço pela autonomia, pois boa parte das lideranças homossexuais passaram a se curvar às prioridades do recém-nascido PT, o único partido que apoiava a luta pelos direitos homossexuais. O movimento guei de São Paulo, então o mais estruturado do país, debilitou-se até quase desaparecer, na década de 1980. Quando a epidemia da Aids irrompeu, por volta de 1983, tentei organizar uma frente contra a doença, e fui procurar os remanescentes do SOMOS, emblematicamente instalado nas dependências do diretório do PT, no Bixiga. A resposta que ouvi do seu líder me deixou assustado pelo sectarismo infantil: o grupo não ia gastar energia com "doença de bicha burguesa que tinha dinheiro para viajar a Nova York". Anos depois, infelizmente ele morreu dessa mesma "doença burguesa". Quanto ao SOMOS, transformado em apêndice da esquerda partidária, descaracterizou-se e sumiu do mapa. Daí por diante, a militância guei tornou-se refém das prioridades do PT.

O resultado é que até hoje o ativismo homossexual no Brasil tateia em busca de um discurso político próprio. Ao contrário, os projetos e as abordagens do movimento homossexual brasileiro continuam, no geral, tributários da esquerda heterossexual. Graças a essa cooptação, boa parte das lideranças gueis fala um jargão restrito à classe média politizada, o que dificulta sua interação com a comunidade homossexual e se traduz em reduzidíssima capacidade de mobilização. As exceções são as Paradas do Orgulho Gay, que infelizmente se reduzem a um dia por ano. Mas, enquanto nos Estados Unidos há inúmeros políticos abertamente homossexuais eleitos em todo o país, o Brasil não consegue emplacar representantes gueis nem para o legislativo. Abandonada a si mesma, a comunidade homossexual brasileira perpetua uma grave inconsciência política, e não consegue se juntar para lutar por seus direitos. Cria-se um círculo vicioso, no qual as lideranças não se comunicam com a coletividade que, por sua vez, não participa do processo, gerando lideranças fragilizadas por excesso de trabalho, vaidade e disputa de poder. Como conseqüência, a comunidade homossexual brasileira continua sujeita a líderes oportunistas, que se apropriam da voz da coletividade, para manipular e se auto-promover. Enquanto isso, a liberação guei parece ter conseguido apenas o direito de consumir - sexo, drogas e roupas da moda. Triste fim para algo que um dia pretendeu transformar a sociedade."